O Inglês expandindo fronteiras: Como diferentes realidades impactam o aprendizado?
Você já teve a sensação de que seus alunos “sabem” inglês, mas travam na hora de usar? Conseguem identificar tempos verbais, traduzir frases, mas não se sentem confiantes para falar ou até entender uma simples conversação? Essa é uma realidade comum em muitas escolas públicas – e ela não acontece por acaso.
O ensino de inglês ainda enfrenta desafios importantes relacionados à estrutura da escola, à formação de professores e ao acesso a materiais didáticos. Embora o idioma seja obrigatório somente a partir do 6° ano do ensino fundamental, a forma como ele é trabalhado em sala de aula pode variar bastante.
Dados do British Council mostram que muitos professores que lecionam inglês na rede pública não possuem formação específica na área, o que impacta diretamente na forma como o conteúdo pode chegar até os alunos. Somado a isso, o tempo reduzido de aula e a falta de recursos acabam limitando o contato real com o idioma.
Na prática, isso significa que dois estudantes da mesma rede podem ter experiências completamente diferentes com o inglês, e consequentemente, resultados muito diferentes também.
Quando o inglês parece distante da realidade do aluno
Para entender melhor essa realidade, conversamos com Alanna Mendonça, de 19 anos, ex-aluna da rede pública que relembrou como eram as suas aulas de inglês no ensino médio.
Segundo ela, o contato com o idioma existia, mas de forma bastante limitada. As aulas aconteciam apenas duas vezes por semana e giravam sempre em torno dos mesmos conteúdos básicos, sem grandes alterações.
“Durante todo o ensino médio, o foco das aulas praticamente não mudava. O ensino era tão básico que o conteúdo sequer avançava com o passar dos anos”, conta.
Apesar de receberem um livro didático por ano, o material raramente era utilizado. Na prática, as aulas baseavam-se em exercícios simples, muitas vezes feitos em fichas ou cópias no caderno.
A conversação, um dos pontos mais importantes no aprendizado de uma língua, praticamente não fazia parte da rotina. O contato com a pronúncia acontecia, na maioria das vezes, por repetição de frases, sem uma conversação real.
Sem atividades mais dinâmicas ou recursos variados, o interesse dos alunos acabava sendo afetado. “Grande parte do meu aprendizado veio mais de músicas, séries e filmes do que das aulas”, afirma.
Quando o ensino ganha novos recursos
Mas essa não é a única realidade possível. Em algumas escolas, o acesso a materiais estruturados e metodologias mais interativas tem mudado a forma como os alunos se relacionam com o idioma, e em alguns casos, isso abre portas que vão muito além da sala de aula.
Um exemplo disso é a história de Pedro Lima, aluno da rede pública que tem acesso a um projeto estruturado de ensino de inglês em sua escola e, pouco depois, participou de um programa de intercâmbio para a Inglaterra.
Segundo Pedro, foi por volta do 8° ano que ele começou a enxergar o inglês como algo além da sala de aula. Colegas que faziam cursos externos e professores que falavam sobre as oportunidades no mercado de trabalho despertaram nele a percepção de que dominar o idioma poderia abrir portas no futuro.
Apesar disso, grande parte do contato inicial com a língua veio de forma espontânea. Desde 2018, ele passou a consumir músicas, séries, filmes e conteúdos internacionais na internet, muitas vezes alternando entre assistir com e sem legendas. Essa curiosidade acabou se tornando um dos principais motores de aprendizado.
A oportunidade de intercâmbio surgiu de forma inesperada – e, consequentemente, a necessidade do uso do inglês também. “Eu nunca imaginei que conseguiria algo assim tão jovem”, relembra.
Durante os 15 dias na Inglaterra, ele percebeu que até o básico fazia diferença. Expressões simples ajudaram nas primeiras interações, seja para pedir algo ou iniciar uma conversa.
Mas o maior impacto veio dentro da sala de aula.
Segundo ele, o modelo de ensino era totalmente diferente: os alunos sentavam em mesas circulares, trabalhavam em grupo e eram incentivados a falar o tempo todo, mesmo errando.
Esse ambiente mais aberto fez com que ele ganhasse confiança e percebesse o inglês como algo vivo, e não apenas um conteúdo escolar.
Dois caminhos, um mesmo ponto de partida
As histórias de Alanna e Pedro mostram algo que muitos educadores já percebem na prática: o problema não está no aluno, mas no tipo de experiência que ele tem com o idioma.
Quando o inglês fica restrito à teoria, o aprendizado tende a ser limitado. Mas quando existem oportunidades de prática, interação e uso real da língua, tudo muda. O idioma deixa de ser apenas uma disciplina e passa a ser de fato uma ferramenta.
E isso levanta uma reflexão importante para quem está dentro da sala de aula todos os dias: na sua escola, os alunos estão aprendendo inglês ou apenas estudando sobre ele?
Referências
BRITISH COUNCIL. O ensino de inglês na educação pública brasileira. 2015. Disponível em: https://www.britishcouncil.org.br/sites/default/files/ensino_de_ingles_na_educacao_publica_brasileira.pdf. Acesso em: 12 março 2026.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br. Acesso em: 12 março 2026.
BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB). Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/avaliacao-e-exames-educacionais/saeb. Acesso em: 12 março 2026.
Revista Brasileira de Ensino e Aprendizagem. Publicações sobre ensino de língua inglesa na rede pública. Disponível em: https://rebena.emnuvens.com.br/revista. Acesso em: 12 março 2026.
KRASHEN, Stephen. Principles and Practice in Second Language Acquisition. 1982. Disponível em: http://www.sdkrashen.com/content/books/principles_and_practice.pdf. Acesso em: 12 março 2026.
2 thoughts on “O Inglês expandindo fronteiras: Como diferentes realidades impactam o aprendizado?”
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Excelente reflexão!
O texto consegue apresentar de forma muito clara como diferentes contextos e oportunidades podem impactar diretamente a relação dos alunos com o inglês. Gostei especialmente da forma como as experiências de Alanna e Pedro foram utilizadas para mostrar que o aprendizado vai muito além do domínio de conteúdos gramaticais: ele também depende de contato, prática e, principalmente, de oportunidades reais de uso da língua. Uma leitura muito pertinente para quem pensa sobre o ensino de inglês e sobre como podemos torná-lo cada vez mais significativo para os alunos. Parabéns pelo texto!
Obrigada pelo comentário, Helena! Fico muito feliz em saber que consegui passar a mensagem de forma clara 🙂